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Trabalhando

Desde que surgiu uma brilhante ideia para a minha dissertação, a qual minha orientadora achou interessante e me incentivou a desenvolvê-la, venho pensando muito na minha relação com o trabalho.
Enquanto estamos no plano teórico, tudo parece simples e tudo nós pensamos que conseguimos fazer. Mas quando chega a prática, você começa a fazer coisas que não fazem parte daquilo que, teoricamente, você acredita. Quando você trabalha, você age mais por instinto do que por razão, e aí que você descobre o que, de verdade, lá no fundinho mesmo, você acredita.

No meu caso, eu parei para refletir o quanto eu sou tecnicista no meu trabalho; e quando estou escrevendo minha dissertação, discutindo com os colegas de pesquisa, eu sou a pessoa mais humana do mundo. Eu penso no usuário, eu penso na informação, eu penso na usabilidade, e eu penso demais. Quando eu volto ao trabalho, eu penso apenas no acervo, no meu serviço, na minha seção, e dane-se se o usuário precisa do livro pra ontem.

Incrível isso. E o pior de tudo, é que eu gosto de ser tecnicista. Eu amo o que eu faço, por isso trabalho na catalogação. Mas penso que devo também começar a repensar todo o processo para que fique mais rápido e mais fácil ao usuário encontrar/usar a informação que precisa.

Eu costumo criticar muito o trabalho que é realizado na seção de referência. Mas o que a minha seção tem feito para minimizar os problemas com a informação? O que eu tenho feito para otimizar os processos?
Percebi que eu penso muito mais no acervo e em como deixá-lo perfeito, do que no usuário. A visão tem que mudar! É preciso começar a pensar na biblioteca como um local de acesso à informação, seja ela qual for, do que apenas num local de depósito de livros.

Faz um tempo que recebemos mais um título da coleção Obras completas do Sigmund Freud, e por ser uma obra meio complicada deixamos ela de lado. Porém, não podemos ignorá-la para sempre né? E sempre surgem livros mais difíceis para catalogar… então peguei ela de novo para rever.

Bom, nessas horas de dificuldade, em que a gente não consegue encontrar resposta no código, temos que procurar alguém com mais conhecimento né? xD
Então mandei um email para meu colega de estágio, o Felipe, um ás na catalogação!

Mandei a página de rosto e meu questionamento.

Na minha opinião de novata, eu catalogaria da seguinte maneira:

Título Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos : (1914-1916) / Sigmund Freud ; tradução Paulo César de Souza. –
Imprenta São Paulo : Companhia das Letrinhas, 2010
Série (Obras completas ; v. 12)

Mas a bibliotecária que trabalha comigo, catalogou uma outra obra desta mesma coleção desta forma:

Título Obras completas de Sigmund Freud / Sigmund Freud ; tradução e [coordenação] de Paulo César de Souza. –
Imprenta São Paulo : Companhia das Letras, 2010-
Descrição 20 v. :  il.
Conteúdo v. 1. Textos pré-psicanalíticos (1886-1899) – v. 2. Estudos sobre a histeria (1893-1895) – v. 3. Primeiros escritos psicanalíticos (1893-1899) – v. 4. A interpretação dos sonhos (1900) – v. 5. Psicopatologia da vida cotidiana e sobre os sonhos (1901) – v. 6. Três ensaios de uma teoria da sexualidade, fragmento da análise de um caso de histeria (“O caso Dora”) e outros textos (1901-1905) – v. 7. O chiste e sua realação com o inconsciente (1905) – v. 8. O delírio e os sonhos na grávida, análise da fobia de um garoto de cinco anos (“O pequeno Hans) e outros textos (1906-1909) – v. 9. Observações de um caso de neurose obsessiva (“O homem dos ratos”), uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910) – v. 10. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranóia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913) – v. 11. Totem e Tabu, história do movimento psicanalítico e outros textos (1913-1914) – v. 12. Introdução do narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916) – v. 13. Conferências introdutórias à psicanálise (1915-1917) – v. 14. História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920) – v. 15. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923) – v. 16. O Eu e o Id, estudo autobiográfico e outros textos (1923-1925) – v. 17. Inibição, sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos (1926-1929) – v. 18. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias e outros textos (1930-1936) – v. 19. Moisés e o monoteísmo, compêncio de psicanálise e outros textos (1937-1939) – v. 20. Índices e bibliografia.
Nota local A biblioteca BAS possui apenas os vols. 10, 12, 14 desta coleção

Então, o Felipe me respondeu o seguinte email:

A área de série sempre foi complicada né, é bastante subjetivo. Creio que seja a área que mais exige pesquisa externa.
Um critério que eu acho interessante, especialmente neste caso: intenção da publicação.
Se uma publicação, que não seja um periódico, iniciar sem previsão de término [poderá ter 10, 30 ou 100 volumes], eu consideraria como série. É bem provável que neste caso a publicação terá assuntos diversos.
Se a publicação iniciar com número de volumes já estabelecido, e que basicamente tratará sobre determinado assunto, eu consideraria como obra volumada.
Dá uma olhada no que a editora diz aqui:

Portanto, eu concordo com a catalogação da bibliotecária que trabalha com você.

Mas de fato é muito subjetivo… Só estou te passando a minha opinião.

Bem, uma complicação! E na verdade, um ponto de vista e uma tomada de decisão. A nossa professora, a Plácida, sempre nos disse que a catalogação é uma tomada de decisões, pois somos nós, bibliotecários, que decidimos como o usuário vai encontrar essa obra.

Mas eu ainda não me decidi qual a melhor forma do usuário encontrar este título… de qualquer forma, vou pendurar meu item no registro da Cláudia. xD

Hoje vamos falar um pouco sobre os autores fictícios.
A Cláudia veio conversar comigo, um outro dia, sobre um livro em que o autor indicado na página de rosto era um personagem do livro, e não existia de verdade.
O título do livro é “A verdadeira história dos três porquinhos!”, e a indicação de responsabilidade é a seguinte: “por A. Lobo tal como foi contada a Jon Scieszka ; ilustrada por Lane Smith ; tradução Pedro Maia”.

A dúvida era, qual a entrada principal deste livro? A. Lobo? Jon Scieszka? Encontramos vários registros com entradas diferentes… Isso, sem olhar a regra né.. porque naquele dia nem lembrei de pegar o AACR2 para ver, (mas estou aprendendo a usar o código agora)! Eu, pelo bom senso, colocaria Jon Scieszka como autor principal, e deixaria a informação do A. Lobo apenas no subcampo C do campo 245. Mas ficamos na dúvida, e deixamos o livro de lado para estudarmos depois.

Ontem, caçando uma informação sobre secundárias no AACR2, me deparo com a seguinte regra:

21.4C1 Se a responsabilidade de uma obra foi atribuída errônea ou ficticiamente a uma pessoa, faça a entrada pelo nome verdadeiro do autor, ou sob o título se o autor verdadeiro for desconhecido. Faça entrada secundária sob o cabeçalho estabelecido para a pessoa a quem é atribuída a autoria, desde que seja uma pessoa real.

The hums of Pooh / by Winnie the Pooh
(escrito por A. A. Milne)
Entrada principal sob o cabeçalho para Milne

Questão respondida!
Exatamente do modo que eu pensei. Mas agora pautado em regras hehe
Então ficou assim: Jon Scieszka como entrada principal, e nenhuma secundária para o A. Lobo, pois ele não é uma pessoa real.

ISBN 9788574062457
Entrada Principal   Scieszka, Jon.
Título A verdadeira história dos três porquinhos / por A. Lobo tal como foi contada a Jon Scieszka ; ilustrada por Lane Smith ; tradução Pedro Maia. –
Edição 3. ed. –
Imprenta São Paulo : Companhia das Letrinhas, 2010
Descrição [28] p. :  il.
Idioma por eng
Nota Título original: The true story of the three little pigs!
Nota local A biblioteca BAS possui a 10. reimpressão de 2010
Assunto Histórias infanto-juvenis.
Literatura infanto-juvenil.
Autor Secundário Smith, Lane.
Maia, Pedro.
Título Adicional The true story of the three little pigs!

E lá vamos nós para mais uma dúvida, que o nosso querido AACR2 responde, e eu tomei vergonha na cara e resolvi pesquisar hehe

Bom, nestes últimos tempos cataloguei uma obra adaptada do Robinson Crusoé. Pesquisei nas bases e encontrei a entrada principal de duas formas: pelo autor, Daniel Defoe, e pelo adaptador, Werner Zotz.
Para mim, a entrada correta era pelo autor. Ignorei os registros que tinham o adaptador na entrada principal e fiz o meu com o campo 100 pelo autor.

Mas aí, eu resolvi dar uma olhada lá no AACR né.. porque não dá pra confiar apenas no bom senso, já que nem sempre meu bom senso é bom né? hehe
E eis que encontro a seguinte regra:

21.10A. Faça a entrada de uma paráfrase, uma nova redação, uma adaptação para crianças, ou versão em outra forma literária (p.ex., transformação em romance, dramatização), sob o cabeçalho estabelecido para o adaptador. Se o nome do adaptador for desconhecido, faça a entrada pelo título. Faça uma entrada secundária de nome-título para a obra original. Se houver dúvida de que se trata de adaptação, faça a entrada sob o cabeçalho estabelecido para a obra original.

Adventures of Tom Sawyer / by Mark Twain ; rewritten for young readers by Felix Sutton
Entrada principal sob o cabeçalho para Sutton
Entrada secundária (nome-título) sob o cabeçalho para Twain

Elaia, agora toca eu arrumar os registros que eu fiz errado hauahuahu
E vou aproveitar pra arrumar os outros registros antigos!

Olha como ficou:

ISBN 9788526276765
Entrada Principal   Zotz, Werner.
Título   Robinson Crusoé : a conquista do mundo numa ilha / Daniel Defoe ; tradução e adaptação em português de Werner Zotz. –
Edição 18. ed. –
Imprenta São Paulo : Scipione, 2011
Descrição 120 p. :  il. –
Série (Reencontro. Literatura )
Idioma por eng
Nota Traduzido e adaptado de Robinson Crusoe
Assunto Literatura inglesa.
Ficção inglesa.
Autor Secundário   Defoe, Daniel, 1661?-1731.

Mas, vamos pensar um pouco… No registro ok deixarmos assim. Mas e na localização?
Um mesmo título com várias adaptações terá várias notações de autor, correto? Assim teríamos, por exemplo:

823 823 823
D314r Z89r L796r

E então o mesmo Robinson Crusoé ficaria espalhado pelo acervo. Eu poderia deixar no registro a entrada principal pelo adaptador e na localização a notação do autor da obra original? O que vocês acham disso?

Eu acho que vou fazer assim por aqui, manter no registro a entrada principal pelo adaptador e na etiqueta de localização a notação do autor.

Depois de um longo e tenebroso inverno, eis que o blog renasce hauhauhau

Bom… Andei muito ocupada estes últimos tempos, e acabei deixando o blog de lado, mas vou tentar retomar as atividades daqui aos poucos.
Hoje quero inaugurar uma nova seção, a seção “Trabalhando”! E junto com ela criei também a categoria “Anotações de catalogação”.
Realizei meu sonho acadêmico de virar bibliotecária catalogadora, mas descobri que a professora de catalogação nos iludiu, porque eu ganho o mesmo tanto que as outras bibliotecárias (ou menos, dependendo). E a dona professora nos disse que ganhariamos rios de dinheiro catalogando hauahuah

Lamúrias à parte, gosto muito do meu trabalho. Mas às vezes é muito difícil catalogar certas obras.
Então vou começar a escrever sobre isso, meu trabalho, pra tentar arrumar meus pensamentos, resolver minhas dúvidas e compartilhar minhas experiências!

Ok, chega de papo furado.

Semana passada veio na minha mão o livrinho infantil “Clact… clact… clact…”, da Liliana e Michele Iacocca. Livrinho muito fofo e talz, porém com essas reticências aí no título.
Num primeiro momento nem questionei, fui buscar na nossa base para ver se existia.
Encontrei um registro, onde o 245 apresentava o seguinte título Clact-clact-clact-. Estranhei o uso de hífens ao invés das reticências, mas como era uma edição diferente, desconsiderei o registro e fui buscar em outras bases.
Encontrei um registro parecido, que a gente chama aqui de RA (registro aproveitado), no Bibliodata. Importei, fiz as alterações necessárias, porém mantive no título as reticências.
Nessa semana, a Cláudia, minha colega de trabalho, veio me perguntar sobre um outro livro que possuía reticências no título, e ela me disse que tinha visto em algum lugar que quando há reticências no título de um livro deveríamos substituir este sinal por um hífen. Ficamos na dúvida.

Bom, aí não teve jeito, eu nunca tinha visto isso e nem me passou pela cabeça procurar no AACR2 (que bibliotecária relaxada eu sou D: ), resolvi apelar para a Zeza! A Zeza é a nossa guru da catalogação. Ela foi olhar o AACR2, claro. E me indicou a regra 1.1B1.
Leiamos:

“[…] Se o título principal aparecer na fonte principal de informação, com os sinais de pontuação … (reticências) ou [  ] (colchetes), substitua-os por – (travessão) e (  ) (parênteses), respectivamente”.

Então ficou o seguinte:

Iacocca, Liliana.
Clact-clact-clact- /Liliana & Michele Iacocca. –
São Paulo : Ática, 2000
15 p. : il. –

Outro exemplo:

Aizen, Naumim,1939-
Era uma vez duas avós- /Naumim Aizen ; ilustrado por Eliardo França. –
Rio de Janeiro : Record, 2009
[32] p. : il.

Certo? Agora eu preciso aprender a sempre consultar a nossa bíblia da catalogação hauhauhau