[Desafio Livrada 2015] A Sonata a Kreutzer, de Lev Tolstói

Cheguei à quarta categoria do Desafio Livrada: um livro escrito antes do século 20.
Pensei em vários autores ingleses, franceses, brasileiros, portugueses. Recorri ao Cleomar (leitor de grandes clássicos brasileiros) e pesquisamos no catálogo da biblioteca alguns clássicos universais. E no fim das contas, escolhi um russo.
Na verdade, eu queria ler Ana Karênina, mas a nossa edição está muito velha, caindo aos pedaços, com aquela capa preta de percalux. Então, olhei para os lados e encontrei A Sonata a Kreutzer. Livro novinho, bonitinho, fininho e publicado pela Editora 34.
Li a contracapa e as orelhas e achei que seria uma boa leitura.

IMG_20150415_170318812A história começa com um grande debate num vagão de trem, onde os personagens discorrem sobre a questão dos casamentos arranjados, dos casamentos por amor e dos divórcios. No meio de toda a discussão, um senhor (que não estava participando da conversa) interrompe e questiona aos demais que amor é este que santifica o matrimônio e por quanto tempo ele dura. Visivelmente perturbado, o homem continua a conversa, questionando, importunando, até revelar ser Pózdnichev, aquele que matou sua esposa por ciúme.
Os outros participantes do debate ficam constrangidos e a conversa se finda. Mas o nosso narrador é o seu companheiro de banco, e sendo uma pessoa muito educada e agradável (imaginei-o assim) acaba concordando em ouvir toda a história do pobre Pózdnichev, de como ele era, como conheceu e casou com sua esposa e o que o fez matá-la.
Resumindo, a história é essa.
Mas o que torna essa obra interessante é toda a discussão acerca dos valores da sociedade, do amor, do casamento, do sexo, da infidelidade, das traições.
Essa obra é misógina? Muito! Meu lado feminista dormente palpitou aqui! Mas enfim, outras eras…

É russo, mas não é difícil! Até porque você vai lendo e quer entender logo o que aconteceu para que as coisas ficassem tão ruins assim.
Melhor não casar, gente! Hahuahuahauhauhau

Segue um dos trechos que eu achei mais interessante:

– O senhor pergunta: como há de continuar a espécie humana? – disse ele, tornando a sentar-se em frente de mim, abrindo muito as pernas e apoiando-se nelas com os cotovelos. – Mas para que deve continuar a espécie humana?

– Como assim? De outro modo, nem existiríamos.

– E para quê temos de existir?

– Como: para quê? A fim de viver.

tolstoi– E para quê viver? Se não existe nenhum objetivo, se a vida nos foi dada simplesmente para ser vivida, não há motivo para viver. E se assim é, os Schopenhauer, os Hartmann e todos os budistas têm absoluta razão. Bem, mas se existe um objetivo na vida, torna-se evidente que a vida deve cessar desde que se atinja o objetivo. E é isto mesmo que se dá – disse ele com evidente perturbação, atribuindo provavelmente grande importância ao seu pensamento. – É isto mesmo que se dá. Observe o seguinte: se o objetivo da humanidade é o bem, a bondade, o amor, como se pretende; se o objetivo da humanidade é o que foi expresso nas profecias, que todos os homens hão de se unir pelo amor, que as lanças serão fundidas e transformadas em foices, e assim por diante, o que é que estorva o caminho para este objetivo? As paixões. A paixão mais forte e pior, a mais insistente, é o amor sexual, carnal, e por isso , se forem destruídas as paixões, inclusive a derradeira, a mais forte, o amor carnal, a profecia há de se cumprir, os homens hão de se unir, estará atingido o objetivo da humanidade, e esta não terá motivo para viver. Mas, enquanto a humanidade vive, tem diante de si o ideal, e naturalmente não é um ideal de coelhos ou de porcos, no sentido de se multiplicar o mais possível, nem de macacos ou de parisienses, no sentido de aproveitar o mais refinadamente os prazeres da paixão sexual, mas um ideal de bondade, alcançável pela abstenção e pela pureza. Os homens sempre tenderam e tendem para ele. E veja o que acontece.

Acontece que o amor carnal é uma válvula de segurança. Se a atual geração humana ainda não atingiu o objetivo, foi unicamente porque ela tem paixões, a mais forte das quais é a sexual. Mas existindo a paixão sexual, existe a nova geração, de modo que é possível alcançar o objetivo na geração seguinte. Esta não o alcança, surge mais uma, e assim será até que se atinja o objetivo, a profecia se realize e os homens se unam. Senão, o que seria? Admitamos que Deus criou os homens para atingir determinado objetivo, e que os criou mortais e desprovidos de paixão sexual, ou criou-os eternos. Se eles fossem mortais, mas desprovidos de paixão sexual, o que aconteceria? Eles teriam vivido sua existência e morrido sem atingir o objetivo; e para se atingir o objetivo, Deus precisaria criar mais gente. Mas se eles fossem eternos, admitamos (embora seja mais difícil aos mesmos homens, e não às novas gerações, corrigir os erros e aproximar-se da perfeição), eles atingiriam o objetivo depois de muitos milhares de anos, mas, neste caso, para quê seriam necessários? Onde metê-los? Assim como sucede agora, é o melhor de tudo…

Nem lembrava que o Yuri tinha feito resenha deste livro já.
Estava dando uma pesquisada no oráculo e encontrei o post dele.
Resolvi fazer uma singela homenagem hahahahaha

yuri

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