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Arquivo mensal: maio 2010

As considerações que tecerei aqui não são lá muito agradáveis para quem é contra… enfim… sintam-se no direito de comentar!

Durante uma assembléia do curso de Biblioteconomia surgiu a discussão sobre a abertura de cursos de graduação à distância, e foi um falatório geral. A informação que obtivemos foi que o Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) havia firmado parceria com a Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) a fim de estabelecer cooperação para o planejamento e a implantação do curso de bacharelado em Biblioteconomia, a ser ofertado nos pólos de apoio presencial do Sistema Universidade Aberta do Brasil – UAB. E como não podia deixar de ser, a UNESP (segundo informações obtidas em assembléia) poderia ser um dos possíveis pólos de apoio presencial, por toda a qualidade do nosso curso presencial.

Então choveu reclamações:

  • O profissional formado em cursos à distância terá sua formação defasada pois não haverá contato entre discentes e docentes;
  • A abertura do curso à distância abrirá precedente para a desvalorização do curso presencial e posterior extinção deste;
  • É injusto que discentes de cursos à distância recebam a mesma titulação e o mesmo salário que os discentes de cursos presenciais, uma vez que o curso não formará um profissional de qualidade;
  • O mercado ficará saturado de profissionais;
  • Um discente que curse a Biblioteconomia à distância como primeira graduação, aos 17 anos por exemplo, não terá responsabilidade o suficiente, e consequentemente, será um mal profissional;
  • Quais serão as competências de um profissional formado à distância senão meras técnicas?

Enfim… reclamações deste nível…

Minha primeira consideração a fazer é: o que sabemos sobre Ensino à distância? Como é desenvolvido um projeto destes? Será que de fato o Ensino à distância seja tão precário assim?

Segundo Vitorino (2009, p. 40), algumas das competências a serem desenvolvidas na modalidade de EaD são:

a) aprendizagem contínua (lifelong learning) – estimula a auto-aprendizagem, permitindo um desenvolvimento pessoal contínuo dos indivíduos, conferindo-lhes maior autonomia (premissa que define uma prática educativa voltada à educação continuada no ensino superior);
b) “presencialidade” – professores e alunos estarão face-a-face em alguns momentos da disciplina, pois é imprescindível a garantia de momentos presenciais ricos em conhecimento, integração e colaboração;
c) flexibilidade – permite maior disponibilidade e ritmos de estudo diferenciados e minimiza as barreiras de espaço e tempo;
d) “distancialidade” – dá origem a métodos e formatos de trabalho mais abertos, que envolvem a partilha de experiências;
e) alfabetização digital (digital literacy) – exige formação mínima quanto aos procedimentos iniciais para o bom aproveitamento dos recursos tecnológicos e promove a experimentação e a familiarização com a tecnologia e com novos serviços telemáticos;
f) interação – proporciona (nos momentos presenciais e nos momentos a distância) uma relação humana alunos/professor que se assemelha a uma sala de aula.

Nesse sentido, é incabível dizer que não há contato entre discentes e docentes, pois sempre haverá um momento em que este contato se faz necessário e obrigatório.
Além disso, cada aluno se desenvolverá em seu próprio ritmo, uma vez que a maior parte das discussões e trabalhos são feitos individualmente por meio de produção de textos sobre tudo aquilo que aprendem e vivenciam durante o curso. Nesse contexto, ressalta-se que este profissional terá a possibilidade de possuir um grau de escrita muito aprimorado, uma vez que toda e qualquer atividade deve ser registrada na plataforma de ensino.
Dizer que o mercado ficará saturado é um medo tolo… se acreditamos que a lei de abertura de bibliotecas escolares na rede pública de ensino do estado de São Paulo e a contratação de bibliotecários para essas instituições for realmente cumprida, haverá muitas frentes de trabalho. Talvez o medo seja não receber o salário “digno” de um bibliotecário, (aqui caberia outra discussão que vou deixar para a próxima…).
Outro ponto que gostaria de tocar é: se alguém pode fazer o curso presencial, ele optará por este e não pelo curso à distância. Baseado nas minhas próprias considerações, não acredito que alguém faça um curso à distância se tem possibilidades (recursos financeiros, geográficos e temporais) para fazer um curso presencial. Quem realmente quer fazer um curso a distância é porque não possui recursos suficientes para se fazer um 100% presencial, recursos como o tempo, por exemplo.
Sobre a questão de técnicas e etc, há cursos e cursos neste país, uns que focam mais na prática profissional, outros mais para a pesquisa, outros para a gestão… por que não haveria cursos e cursos com enfoques diferentes em EaD. Falar que o profissional formado terá apenas conhecimentos técnicos é algo que não podemos afirmar, uma vez que ainda não se tem ementas certas das disciplinas disponíveis na web (pelo menos, eu não encontrei).
Dizer que um discente que curse a Biblioteconomia à distância como primeira graduação, aos 17 anos por exemplo, não terá responsabilidade o suficiente, e consequentemente, será um mal profissional é falar que você mesmo não tem maturidade o suficiente para fazer a faculdade… afinal de contas, quantos alunos recém-formados do ensino Médio não entram na faculdade? (Embora, eu ache que nessa idade as pessoas querem mesmo é estudar fora e sair de casa… mas enfim… opiniões e opiniões)
Última questão que quero refletir é: por que é injusto que discentes de cursos à distância recebam a mesma titulação e o mesmo salário que os discentes de cursos presenciais, se eles fazem o mesmo que nós? Estudam, fazem o trabalho de conclusão de curso, defendem?

O que está por detrás desse tipo de discurso é o medo… Medo de não se adequar a um mercado que exija profissionais de qualidade. Não importa se você fez um curso presencial ou à distância, se você o fizer bem. Você será um bom profissional se assim quiser, não importa onde esteja. Há cursos que deixam a desejar? Há… mas quem corre atrás do prejuízo é a própria pessoa…
Penso assim, pois o curso não será feito de qualquer jeito, afinal é uma parceria entre CFB e CAPES. Deverá ter certa qualidade, acredito eu…

Se você se garante com o que sabe e conhece, por que achar injusto e ter medo de alguém que você mesmo considere “inferior”?
É porque existe o medo de ser passado para trás por pessoas “inferiores”…
Enfim… injusto é pensar que poderemos estar privando milhares de pessoas que gostariam de fazer a graduação em Biblioteconomia, pensando em nosso próprio bem-estar…

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Referência

VITORINO, Elizete Vieira. A perspectiva da competência informacional na Educação à Distância (EAD). Inf. & Soc.:Est., João Pessoa, v. 19, n. 2, p. 37-44, maio/ago. 2009. Disponível em: <http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/1834/3023>. Acesso em: 31 maio 2010.