Bordados

Quem me segue no Twitter percebe que sou uma pessoa altamente irritável e sempre de mau-humor. Aliado à isso, estava enfrentando um período de tédio avassalador e estava tentando melhorar isso lendo mais livros.

Acontece que quanto mais livros eu leio, maior a minha raiva do universo e das pessoas medíocres, em geral. Comecei a ouvir podcasts com maior frequência também e depois de ouvir um episódio d’As Desqualificadas, eu descobri o maravilhoso mundo do bordado.

A Camila e a Bia conversaram com a Renata, do Clube do Bordado, e com a Patrícia Cardoso, uma costureira incrível. Fiquei com tanta vontade de bordar, que comecei a pesquisar riscos, assistir vídeos sobre pontos e buscar material de bordado.

Como eu trabalho o dia todo e o comércio da cidade só fica aberto até as 18h, tive que esperar pelo fim de semana, para comprar minhas linhas, agulhas e bastidor. E assim, começou a minha jornada de bordadeira.

Fiz uns testes com uma imagem que encontrei no Pinterest, mas depois resolvi que queria bordar um daqueles desenhos dos livros de colorir. Tirei uma cópia da página, transferi com papel carbono e comecei o desafio.

Esse é o meu primeiro bordado a sério e estou experimentando vários pontos que eu aprendi pelos vídeos no Youtube. Acho que para quem está começando, está ficando muito bonito.

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É muito gostosa essa sensação de eu conseguir fazer algo bonito e criativo, mesmo o desenho não sendo meu. Acho que o que faltava na minha vida era esse pouquinho de arte. Estou mais paciente com as pessoas? Não, com certeza não. Mas estou mais satisfeita comigo mesma. Bordo e fico ouvindo meus podcasts favoritos. É bem relaxante.

Agora, estou ansiosa para terminar e começar um desenho novo. Vai ser o meu novo jeito de dar presente de aniversário e natal para as pessoas 😀

O duro é que às vezes eu quero ler e bordar ao mesmo tempo. Talvez eu tenha que começar a comprar audiolivros hahahaha

Esse blog era para ser mais profissional, falar do meu trabalho. Mas, a vida muda, o pensamento muda, a vontade muda, eu resolvi que vou escrever sobre o que eu quiser. Como o meu trabalho já não tem mais sentido nenhum na minha vida senão ser a minha subsistência, vou parar de falar de biblioteca e falar do que eu gosto.

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A arte de produzir efeito sem causa, por Lourenço Mutarelli

Depois de muito enrolar, li o livro A arte de produzir efeito sem causa e não gostei. Fiquei pensando se eu devia escrever sobre minha experiência de leitura, pois não é muito do meu costume fazer isso… Geralmente, quando a história começa a me irritar, eu paro de ler. Mas, neste caso, minha irmã tinha me indicado e falado tanto para eu ler, que me senti impelida a terminar. Além disso, eu pesquisei por cima na interwebz e não achei uma crítica negativa. Achei que poderia dar uma de chata e contrariar a maioria 😛

Sinopse

Depois de largar o emprego e a mulher, por motivos que guardam uma infeliz coincidência, Júnior volta para a casa do pai. Sem dinheiro nem perspectivas, seus dias se dividem entre o velho sofá da sala transformado em cama, o bar onde bebe com desocupados e as conversas com a jovem e atraente inquilina do pai, Bruna, que ambos espiam através de um furo no armário. A pasmaceira só é interrompida quando começam a chegar pelo correio pacotes anônimos com recortes de notícias velhas, em inglês – uma delas sobre o episódio em que o escritor William Burroughs matou a mulher acidentalmente. Enquanto se entrega a reminiscências e persegue objetivos pequenos e imediatos – a próxima refeição, o resgate de uma dívida com o antigo chefe, o dinheiro para o próximo cigarro -, Júnior começa a roer a corda que separa sanidade e loucura, e dá passos numa espiral aterradora que engole todos que o cercam.  tom sombrio e opressivo dos outros livros de Mutarelli aparece aqui novamente, remetendo a influências confessas como Kafka e Dostoiévski. A ele somam-se o tédio e o vazio em meio aos quais os personagens se arrastam, num cotidiano marcado por obsessões sexuais e por um cenário típico da baixa classe média brasileira. Confrontado com uma espécie de afasia, incapaz de confiar na própria linguagem, invadido por associações livres e imagens sombrias, Júnior tenta relembrar seus últimos dias e avaliar os motivos que puseram fim a seu casamento. Mas tudo o que consegue é uma leitura muito particular do que acontece à sua volta, amparada em imagens misteriosas que Mutarelli acrescenta ao romance. Mais do que um retrato de uma sociedade hostil, em que é preciso escolher entre a adaptação estupidificante e o alheamento auto-destrutivo, A arte de produzir efeito sem causa é um mergulho na consciência individual, um universo que depende de muito pouco para revelar seus limites e abismos.

(Fonte: Site da Companhia das Letras)

Análise

mutarelliAntes de mais nada, devo admitir que acho que Mutarelli não é o meu tipo de leitura favorita, o que já dificulta eu gostar da obra.

A sinopse promete muito, mas o livro não entrega tudo isso. A começar que o livro é bem fino, e acho que são poucas páginas para descrever a opressão da loucura que vai tomando conta de Júnior.

O livro é dividido em duas partes. A primeira é uma descrição da vida de Júnior, a segunda é a descrição da loucura que tomou conta do sujeito.

Júnior abandona a família e o emprego depois de descobrir a traição da mulher. Ele resolve ir pra casa do pai, temporariamente, mas acaba ficando por tempo indefinido, uma vez que uma espécie de indolência e depressão toma conta dele e ele não consegue pensar, raciocinar e nem ir atrás de um emprego ou de um rumo pra sua vida.

Toda essa parte é a mais irritante possível. Júnior é só um cara babaca, perdido, que pende pro machismo e parece meio descompensado pelo abuso de álcool (e das drogas que usou na juventude).

Para mim, parecia apenas a tragédia de um cara branco (eu presumi que era branco), classe média baixa, heterossexual e pouco desenvolvido emocionalmente, que não consegue lidar com a traição da mulher e com a falta de dinheiro. Eu achei a história toda um saco.

Aí a história começa ir para uma outra direção, quando Júnior começa a ter ataques epilépticos e surtos de loucura. Começa com uns desmaios e dores de cabeça e se transforma em loucura completa, com ele não conseguindo se comunicar e se sentindo perseguido por todos. O livro termina em suspense.

Para mim, foi uma experiência irritante e cansativa. Não gostei da leitura, mas principalmente, não gostei do personagem. Acho que quando você não vai com a cara do protagonista, a história não flui. De cara besta e derrotista, já temos muito no mundo real. Não preciso de mais uma história de ficção…

Gastei meu tempo precioso lendo. Se não tivesse sido uma indicação insistente, não teria lido e não teria perdido nada com isso.

Ficha técnica

Imagem da capa do livro arte de produzir efeito sem causaTítulo: A arte de produzir efeito sem causa
Autor: Lourenço Mutarelli
Gênero: ficção
Temas: loucura
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535912623

Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, por Xinran

Fazia um tempo que eu queria ler os livros da Xinran. Eu já havia lido o romance As filhas sem nome, mas eu nunca peguei as suas obras de não-ficção.

Na biblioteca onde eu trabalho, temos apenas o livro Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, e foi o que eu resolvi pegar para a categoria número 15: autora asiática, do desafio literário do podcast As desqualificadas.

Eu poderia ter sido menos óbvia e ter pego algum livro da Ásia Ocidental. Mas, como faz muito tempo que a Xinran está na minha lista de leituras futuras, não dava pra postergar mais.

Sinopse

No Ocidente, temos um conhecimento apenas folclórico sobre a lei chinesa de planejamento familiar – da qual a política do filho único é a parte mais difundida – e, sobretudo, sobre a prática ainda presente em rincões pobres da China rural do infanticídio de bebês do sexo feminino, ou das mães que dão suas filhinhas para adoção. Se as razões sociais e o contexto histórico que levam a tais extremos são praticamente desconhecidos dos ocidentais, menos ainda se sabe sobre o que pensam e sentem as pessoas diretamente afetadas por esses trágicos fenômenos.
Com Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, Xinran, jornalista e autora do best-seller internacional As boas mulheres da China, retorna às histórias verídicas de mulheres chinesas que a tornaram mundialmente conhecida. Desta vez ela aborda o sofrimento humano resultante da interação de uma milenar cultura machista com circunstâncias históricas, econômicas e sociais específicas. Em dez capítulos, são apresentadas dez histórias marcadas pela interrupção da relação mãe-filha, de meninas que nunca conheceram suas mães biológicas e mulheres que deram a filha em adoção a casais de camponeses que vivem sem endereço fixo, viajando pelos quatro cantos da China para burlar a fiscalização da lei do filho único – eventualmente abandonando uma menina numa estação de trem.
Ao longo dos anos Xinran foi tomando conhecimento das circunstâncias em que vivem tais mulheres. Após relutar, decidiu abordar esse delicado tema e dedicar um livro às centenas de milhares de mães chinesas que se viram levadas a rejeitar – e até mesmo a matar – suas bebês: pela primeira vez, elas teriam suas histórias ouvidas. São, é claro, histórias alarmantes, como a vez em que a própria autora testemunhou, em Yimeng, numa das áreas mais pobres da China, uma parteira afogar uma menina recém-nascida num balde de água suja. Mas o livro ainda é cheio de dados estatísticos também preocupantes: uma família chinesa gasta de 1,3 mil a 6,5 mil dólares para adotar um menino, mas apenas de 25 a 39 dólares por uma menina. Juntos, material humano, dados históricos e informações estatísticas compõem um envolvente panorama de tristes experiências de maternidade e confirmam a autora como uma das principais vozes a traduzir a complexa da realidade chinesa para o público-leitor ocidental.

(Fonte: Site da Companhia das Letras)

Análise

A sinopse do livro já diz tudo. São histórias verídicas de mulheres chinesas que tiveram que abandonar ou matar suas filhas, devido à grande pressão para terem filhos homens.

A leitura deste livro foi muito interessante para conhecer essa realidade por mim até então desconhecida. Todo mundo escuta sobre a política do filho único que imperou na China há algumas décadas, mas eu nunca parei para pesquisar e saber mais sobre a a origem da ideia e quais foram as consequências para o país e para a sua população.

Mas acima de tudo, foi uma leitura pesada e em acabei chorando em muitas partes. É estarrecedor ver como a cultura patriarcal trouxe tanto sofrimento às mulheres, sob a pressão de gerar filhos homens ou não seriam boas mulheres, que são mulheres inúteis e sem valor.

Toda mulher que já teve um bebê sentiu dor, e as mães de menininhas têm o coração cheio de tristeza!

Não é uma novidade saber que no mundo inteiro, por muito tempo (e talvez ainda hoje), as mulheres eram consideradas apenas como mercadoria, como propriedade de seus familiares homens e que não valiam muito mais que os animais. Mas, é angustiante ler, descobrir as estatísticas e comprovar pelos relatos que isso não é uma ficção distópica, que tudo isso faz parte do mundo real.

E fica a pergunta, onde está a justiça para todas as mulheres que foram injustiçadas, mortas e acusadas? Quando seremos recompensadas por toda essa dor? A luta do feminismo não é a busca por termos mais direitos do que os homens, mas é a luta para que sejamos tratadas de igual para igual, como seres humanos.

Esse livro não se trata de feminismo, mas enquanto houver desigualdade, haverá esse tipo de atrocidades.

Ficha técnica

Capa do livro Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida : histórias de perdas e amoresTítulo: Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida
Título original: Message from an unknown chinese mother
Autor: Xinran
Gênero: não-ficção
Idioma original: inglês
Temas: relatos biográficos, China, mulheres, mães
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535918021

Terra das mulheres, por Charlotte Perkins Gilman

2018 foi o ano que eu comecei a me declarar abertamente feminista. Comecei a ler mais sobre o assunto e resolvi que devia começar a ler mais mulheres. Procurei muitas listas de leitura pela internet afora e descobri o livro Terra das mulheres, da Charlotte Perkins Gilman.

Esse livro esteve em várias listas e foi citado em quase todas como uma utopia feminista. Achei interessante a história, e comecei a ler ano passado.

Acontece que eu achei a leitura bem maçante no começo, e acabei abandonando.

Mas, com o desafio literário d’As desqualificadas, resolvi retomar a leitura e encaixei este livro na categoria número 14 (livro publicado antes de 1945).

Sinopse

Publicado pela primeira vez em 1915, Terra das mulheres mostra como seria uma sociedade utópica composta unicamente por mulheres. Antes do leitor encontrar a suposta maravilha dessa utopia, terá de acompanhar três exploradores — Van, o narrador; o doce Jeff; e Terry, o machão — e suas considerações e devaneios sobre o país, no qual, os três têm a certeza de que também existem homens, ainda que isolados e convocados apenas para fins de reprodução. Um país só de mulheres, segundo os três, seria caótico, selvagem, subdesenvolvido, inviável. Uma vez lá, Van, Jeff e Terry se dividem entre a curiosidade de exploradores com fins científicos e o impulso dominador de um homem, oscilando entre tentar entender mais sobre aquela utópica e desconhecida sociedade e o sonho de um harém repleto de mulheres que talvez estejam dispostas a satisfazê-los e servi-los.

(Fonte: GoogleBooks)

Análise

O começo da leitura foi muito difícil, pois a história é narrada pelo ponto de vista masculino, e considerando os homens do início do século XX (e ainda muitos outros deste século), a visão que eles tem das mulheres é algo aterrador.

São três homens com visões diferentes da vida, mas todos os três tem a mesma impressão geral das mulheres: seres frágeis, fúteis e dependentes de homens. Enfim, todo o começo do livro é uma grande discussão entre os três falando sobre esse país mítico que eles ouviram falar e que eles precisariam muito investigar isso, pois não conseguem conceber a ideia de mulheres livres e donas de si, governando um país sozinhas.

Mas, a leitura flui melhor depois que eles conseguem entrar no país. A curiosidade de conhecer essa sociedade foi maior do que a raiva de ler os comentários machistas, e aí o livro acabou num instante.

A Terra das mulheres é um país em que todas as mulheres trabalham em atividades que são compatíveis com suas personalidades, produzem apenas o que consomem, possuem uma curiosidade enorme pela vida fora de seu país e estudam e aprimoram tudo o que é possível. A única questão que foge um pouco da lógica é a maneira como se reproduzem. Segundo elas, um grupo específico de mulheres conseguem engravidar só pela vontade de engravidar. E como são todas muito racionais, o desejo de gerar novas filhas só é realizado a partir de um grande controle de natalidade.

A ideia de uma utopia feminista é muito interessante, mesmo que tenha um elemento meio fantasioso sobre a gravidez sem a necessidade da fecundação. É possível isso acontecer, em termos científicos? Não faço ideia. É irritante ver uma sociedade obcecada pela maternidade, como se fosse um traço natural de todas as mulheres? Sim, muito! Mas temos que pensar que o livro foi escrito no início de 1900, e foi interessante ver como funcionaria isso. Uma sociedade em que as filhas são de todas e a comunidade tem que zelar por elas.

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Fonte: http://revistanaipe.com/pirao/carta-ao-futuro/

O ponto que mais me incomoda é que, de certa forma, há uma generalização das mulheres, como se todas tivessem um pensamento mais ou menos igual. Não existe um sentimento de individualidade nelas. Mas, acho que isso se deve pelo fato da sociedade ter se desenvolvido desta forma. As tutoras dos homens invasores explicam em dado momento do livro que já houve algumas mulheres mais rebeldes, mas que foram contidas. Elas não detalham a forma como isso se deu, mas creio que isso acabou moldando a sociedade para ser mais coletiva.

Enfim, foi uma leitura muito boa, mesmo com a minha resistência inicial 🙂

Ficha técnica

Capa do livro Terra das mulheres, por Charlotte Perkins Gilman

Título: Terra das mulheres
Título original: Herland
Autor: Charlotte Perkins Gilman
Gênero: ficção
Idioma original: inglês
Temas: feminismo, utopia, sociedade
Editora: Rosa dos ventos
ISBN: 9788501114808

A bolsa amarela, por Lygia Bojunga

Faz muito tempo que me indicaram a leitura de A bolsa amarela, da Lygia Bojunga. Meu caríssimo amigo, Cleomar, vivia falando pra eu ler alguma obra dela. E eu, com tantos livros para ler, sempre posterguei.

Então, esse livro foi sugerido no clube do livro do meu trabalho, no mês de fevereiro, e finalmente tirei a poeira deste livro e lamento muito por não ter lido antes! Aproveitei também para já concluir a categoria Livro infantil no desafio do podcast As desqualificadas.

Esse tipo de livro é aqueles universais, que qualquer idade pode ler e traz muitas reflexões. Acho que deveria ser leitura obrigatória nas escolas hahaha

Sinopse

A Bolsa Amarela já se tornou um ‘clássico’ da literatura infantojuvenil. É o romance de uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde numa bolsa amarela) – a vontade de crescer, a de ser garoto e a de se tornar escritora. A partir dessa revelação – por si mesma uma contestação à estrutura familiar tradicional em cujo meio ‘criança não tem vontade’ – essa menina sensível e imaginativa nos conta o seu dia-a-dia, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação fértil e povoado de amigos secretos e fantasias.

(Fonte: GoogleBooks)

Análise

Em pouco mais de 100 páginas, Lygia consegue trazer vários temas sérios, mas de uma forma leve e descontraída.

Raquel é a filha caçula de uma família com muitos filhos e, por ser criança, acaba sendo subestimada, porque “afinal de contas, criança não entende nada”.

Ilustração de uma menina com cabelos longos carregando uma cesta cheia de papéis rasgados

Ela sofre aquela implicância que muitos irmãos mais velhos gostam de fazer com os mais novos, com falas cruéis e com uma ausência de sensibilidade muito grande, de modo que ela começa a ter a vontade de ser grande, de deixar de ser criança, porque ninguém a respeita em sua individualidade.

A segunda grande vontade dela é a de ser escritora, que ela vai alimentando com a sua criatividade e com a sua habilidade de criar histórias. Ela não quer que ninguém saiba, pois as pessoas não entendem o seu sonho e ficam falando que ela só pensa em besteira. Isso me fez refletir o quanto a gente ri das coisas que as crianças falam e não as levamos a sério, e nunca paramos pra refletir o quanto isso pode magoar e traumatizar!

A terceira vontade aparece quando Raquel começa a perceber que o mundo divide os meninos e as meninas em grupos separados e que há determinadas brincadeiras que só um grupo pode brincar, como por exemplo soltar pipa. Pensando na atualidade, ainda há pessoas que insistem que meninas só podem ganhar presentes como bonecas e brinquedos de ‘mini dona-de-casa’ e apenas os meninos que gostam de videogames. Assim, Raquel decide que tem vontade de ser tornar um menino, já que as meninas não podem fazer nada e tem que sempre se comportar.

E assim vai desenrolando a história. Ela faz amigos improváveis como, o galo Afonso, o Alfinete de Fralda e a Guarda-chuva, cada um com seus dramas e suas vontades.

Ela ainda discute sobre como às vezes alguém nasce, cresce e sonha em ser algo, como o Afonso que era um galo chefe de galinheiro e o Terrível que era um galo de briga, mas nenhum dos dois queriam ser o que lhes fora determinado. Eles queriam mesmo curtir a vida. Afonso não aguentou a vida do galinheiro e fugiu. Mas o Terrível teve um destino cruel, ter seu pensamento costurado para que ele se tornasse o que seus donos queriam. E quantas pessoas a gente vê por aí que tiverem seus pensamentos costurados pela pressão da sociedade, pelas circunstâncias da vida e não conseguem ser aquilo que querem.

É um livro muito poderoso! Toda criança deveria ler!

Tá vendo? Falaram que tanta coisa era coisa só pra garoto, que eu acabei até pensando que o jeito era nascer garoto. Mas agora eu sei que o jeito é outro.

Ficha técnica

Capa do livro A bolsa amarela. Na capa temos a ilustração de uma bolsa amarela, com um pedacinho da bolsa cortado, onde aparece a cabeça do galo AfonsoTítulo: A bolsa amarela
Autor: Lygia Bojunga
Gênero: ficção
Temas: infância, literatura infantil, imaginação, preconceitos
Editora: Agir
ISBN: 8589020037

A menina submersa, por Caitlín R. Kiernan

Eu li A menina submersa, da Caitlín R. Kiernan, sem saber muita coisa sobre a história. E depois de ler, fiquei alguns dias pensando sobre muitas coisas que são abordadas na obra, como loucura, medo e relacionamentos.

Escolhi este livro para a categoria 19 (Escrito por uma mulher transexual) do desafio literário do podcast As desqualificadas, e nem sei bem porque foi a minha escolha. Consultei muitas listas no Google sobre livros escritos por mulheres trans, e tinha vários outros títulos em mente, inclusive obras de não-ficção.

Então, acabei me deparando com este título, li a sinopse, que não me disse muita coisa, mas me deixou a impressão de que seria uma boa leitura.

Sinopse

‘A Menina Submersa – Memórias’ é um verdadeiro conto de fadas, uma história de fantasmas habitada por sereias e licantropos. Mas antes de tudo uma grande história de amor construída como um quebra-cabeça pós-moderno, uma viagem através do labirinto de uma crescente doença mental. Um romance repleto de camadas, mitos e mistério, beleza e horror, em um fluxo de arquétipos que desafiam a primazia do ‘real’ sobre o ‘verdadeiro’ e resultam em uma das mais poderosas fantasias dark dos últimos anos. Considerado uma ‘obra-prima do terror’ da nova geração, o romance é repleto de elementos de realismo mágico e foi indicado a mais de cinco prêmios de literatura fantástica, e vencedor do importante Bram Stoker Awards 2013. A autora se aproxima de grandes nomes como Edgar Allan Poe e HP Lovecraft, que enxergaram o terror em um universo simples e trivial – na rua ao lado ou nas plácidas águas escuras do rio que passa perto de casa -, e sabem que o medo real nos habita. O romance evoca também as obras de Lewis Carrol, Emily Dickinson e a Ofélia, de Hamlet, clássica peça de Shakespeare, além de referências diretas a artistas mulheres que deram um fim trágico à sua existência, como a escritora Virginia Woolf.

(Fonte: GoogleBooks)

Análise

Acho que o que me fisgou foi a parte que fala sobre contos de fadas e sereias. Eu tenho um grande fascínio pelos contos de fadas, mas para falar a verdade, o livro não se trata bem disso. Não acho que é um livro de fantasia.

O livro é narrado em primeira pessoa, pela India Morgan Phelps, mais conhecida como Imp, como se ela estivesse escrevendo um livro com as suas memórias. De certa forma, não é um livro com começo, meio e fim, pois Imp está construindo o texto das suas memórias, o que faz com que tenha muita digressão e às vezes um retorno às partes já escritas em capítulos anteriores, como se ela estivesse retomando a linha de pensamento.

Imp foi diagnosticada com esquizofrenia e logo no começo de suas memórias, ela conta que sua mãe e sua avó também possuíam algum traço de loucura. Ela relata como foi conviver com a doença delas e também vai refletindo como é conviver com a sua condição.

Mas o que faz com que ela resolva escrever essas memórias é um encontro que ela teve com uma mulher misteriosa, desencadeando em uma grande crise mental. A escrita deste livro, acredito eu, faz parte dela tentar entender os acontecimentos, além de ser uma grande busca pela sua identidade. Quem é a Imp? Será que tudo o que aconteceu foi devido à esquizofrenia? Será que tudo o que ela se lembra na verdade é uma criação da sua mente enferma? Acho que ela começa a escrever para tentar se resgatar do fio de loucura que a envolve cada vez mais, uma forma de exorcizar seus fantasmas.

Nenhuma história tem começo e nenhuma história tem fim. Começos e fins podem ser entendidos como algo que serve a um propósito, a uma intenção momentânea e provisória, mas são, em sua natureza fundamental, arbitrários e existem apenas como uma ideia conveniente na mente humana. As vidas são confusas e, quando começamos a relacioná-las, ou relacionar partes delas, não podemos mais discernir os momentos precisos e objetivos de quando certo evento começou. Todos os começos são arbitrários.

A história não é linear e tem muitas partes em que ela divaga sobre a obra de certos artistas pelos quais ela é fascinada. No mundo do livro A menina submersa, existem dois artistas (fictícios) muito importantes para o desenvolvimento da narrativa, Albert Perrault e Phillip George Saltonstall, que trabalham o mito do lobo e da Chapeuzinho Vermelho e das sereias em suas obras. Mas nenhuma dessas divagações é em vão, pois esses dois mitos permeiam toda a obra e acompanham a lógica de pensamento da Imp.

Outro aspecto interessante é a forma natural como é abordada a sexualidade das personagens principais, a Imp e a sua namorada, a Abalyn, uma mulher trans. É só a sexualidade delas e ponto. Acho importante e interessante que a obra seja tratada assim, pois a história é mais sobre loucura do que sobre identidade de gênero/sexualidade.

Eu gostei muito de ter lido este livro. Não seria uma escolha imediata, pois eu nunca tinha ouvido falar da Caitlín R. Kiernan. Só depois que eu a encontrei nas listas é que passou a ser uma opção. Mas agora, acho que vou tentar encontrar outras obras dela para ler. A edição da Darkside é maravilhosa de linda e preciso muito comprar este livro para ter na minha estante.

Em resumo, não é uma leitura fácil, mas é muito envolvente. Não faço ideia de como é ter esquizofrenia, mas imagino que seja uma obra que represente bem essa condição.

Foto do livro A menina submersa. Na página aberta há a ilustração do quadro A menina submersa, onde uma menina nua se encontra dentro de um lago, cercada por florestas.
Fonte: Darkside Books

Ficha técnica

Capa do livro A menina submersaTítulo: A menina submersa
Título original: The drowning girl
Autor: Caitlín R. Kiernan
Gênero: ficção
Idioma original: inglês
Temas: loucura, esquizofrenia, relacionamento
Editora: Darkside Books
ISBN: 9788566636536

Desafio As Desqualificadas

No ano passado, eu comecei a ouvir podcasts durante o trajeto casa-trabalho-casa. Eu encontrei muitos interessantes, mas um em especial me trouxe um desafio literário necessário, que foi o do podcast As Desqualificadas.

A Bia Alves e Camila Cabete desafiaram os ouvintes a lerem mulheres, com livros divididos em 26 categorias, sendo 24 pra valer e 2 bônus.

Imagem do Desafio Desqualificadas, com a descrição das 24 categorias padrão e as 2 categorias bônus

Eu fui analisar se eu lia mais homens que mulheres e verifiquei os livros lidos nos últimos 3 anos. Deu um empate técnico, mas com um número ligeiramente maior de autores do que autoras.

Fiquei orgulhosa dos números, mas acho que ainda preciso conhecer mais autoras. Historicamente, as escritoras foram muito invisibilizadas pela imprensa, e muitos homens levavam os créditos pelo trabalho de suas esposas, por isso acho importante a gente começar a ler mais mulheres. Principalmente, para entender a importância da construção da literatura a partir do olhar feminino e feminista.

Então, acho que desafios literários desse porte são necessários a todos nós.

Bom, segue a lista das categorias do desafio e com os livros já lidos:

  1. Escrito por uma mulher negra: Mulheres, raça e classe, por Angela Davis
  2. Livro de ficção científica: A quinta estação, por N. K. Jemisin
  3. Autora africana: Sejamos todos feministas, por Chimamanda Ngozi Adichie
  4. Autora brasileira: Nada a dizer, por Elvira Vigna
  5. Livro infantil: A bolsa amarela, por Lygia Bojunga
  6. História de gerações familiares:
  7. Personagem feminina cientista:
  8. Livro de poesia: Um útero é do tamanho de um punho, por Angélica Freitas
  9. História em quadrinhos: Uma morte horrível, por Pénélope Bagieu
  10. Sobre uma mulher atleta:
  11. Livro com alguma religião que não seja a sua: Hibisco roxo, por Chimamanda Ngozi Adichie
  12. Livro vencedor de algum prêmio: O sol é para todos, por Harper Lee
  13. Releitura de um clássico: A pequena sereia e o reino das ilusões, por Louise O’Neill
  14. Livro publicado antes de 1945: Terra das mulheres, por Charlotte Perkins Gilman
  15. Autora asiática: Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, por Xinran
  16. Autora indígena: Metade cara, metade máscara, por Eliane Potiguara
  17. Autora latino-americana: Contra os filhos, por Lina Meruane
  18. Literatura LGBTQ+: Simon vs. a Agenda Homo Sapiens, por Becky Albertalli
  19. Escrito por uma mulher transexual: A menina submersa, por Caitlín R. Kiernan
  20. Livro de terror: Assombração da casa da colina, por Shirley Jackson
  21. Livro lançado em 2019:
  22. Livro comprado pela capa:
  23. Livro de uma série: A casa das sete mulheres, Letícia Wierzchowski
  24. Literatura juvenil escrito por uma mulher negra:
  25. Livro escrito por uma autora do seu estado: Antes do baile verde, por Lygia Fagundes Telles
  26. Livro escrito por uma autora da sua cidade:

O legal de participar de desafios é que você diversifica a sua leitura, e conhece outros temas e outras autoras. Conforme eu for lendo, vou atualizando aqui.

E se você gostou do desafio, participe e entre no grupo do Goodreads para acompanhar os participantes e escute o podcast As desqualificadas 😉

Imagem do logo do podcast As desqualificadas. A imagem é composta por um desenho dividido em duas partes, a parte esquerda é um cérebro e a parte direita é uma vulva. Embaixo do logo vem escrito: Desqualificadas